Tempos de brincar, de prazer e de chorar

A minha meninice parecia normal. Ou seja, sem aparente diferenciação para alguém com mundo interior já bem maior ao exterior. Na bola de gude, ninguém me vencia. Força e precisão nos dedos. Nas brincadeiras que exigiam esforço físico e rapidez, dificilmente era alcançavel. Infantil, porém me sentia poderoso, orgulhoso de mim mesmo, por vencer aqueles inocentes embates.

Contudo, deparei-me com defeitos de gente. Sentia desejos e atração comprimido pelo sexo oposto. Convivia com lágrimas e reflexões nos recantos por causa da complexidade conjugal entre minha mãe e meu padrasto. Em alguns momentos, estimulado por insinuações maternais, era fato o sentimento de rejeição, como estranho no ninho. Nascia em mim muitos amores platônicos e também o medo de um mundo não vivido.

A vida intimista era um escudo perfeito. Gostava de me esconder naquele universo só meu, construído com múltiplos sentimentos, inomináveis para a minha idade. Ficou mais latente dentro de mim uma força de caráter visível. Como mais velho dos irmãos por parte de mãe, a criatividade me dominava. Rejeitava o mundo já criado. Anseiava pelo meu. Com isso, tentei gestar o mundo perfeito. Era utópico, mas eu náo sabia o siginificado de surrealismo.

A primeira vez em contato com meu corpo foi durante o banho, por acaso, com jato de água quente em direção ao meu glande, pruduzindo uma sensação inédita de prazer, com gozo sem sêmem. Não sei como foi aquilo.Não lembro ter pensado em alguém. Apenas senti! A partir de então, procurei sempre produzir aquele êxtase, agora, com as mãos.

As lágrimas apareceram junto com o prazer. Fui apresentado ao sentimento de culpa e também à maldade. Vi meu pai agredir minha mãe com alguma frequência. Amava minha mãe e respeitava meu padrasto. Era a criança boa aos olhos alheios, porém censurável aos meus. Era a adolescência chegando com a percepção do livre arbítrio. 

O custo de viver é gratuíto. A despesa de tentar renunciar à vida é de cara manutenção. Como não conseguir pagar o condomínio.

A timidez me descobre em formação

Vejo-me, agora, com aproximadamente 7 anos de idade, já em busca da predestinação. Determinado a saber o motivo de existir. A exterioridadade me assustava. Ir à escola, primeiro pelas mãos de minha mãe, depois sozinho, andando cerca de 3 quilômetros, era algo misterioso, de descoberta. Minha quietude permanecia na sala de aula, com poucos colegas.

A timidez, talvez, surgira do nascimento. Mistura de genética e condicionamento social. Alimentei mecanismos de defesa. Não admitia não ficar entre os melhores, em quaiquer áreas. Minha notas tinham de ser boas, mesmo a matemática sendo minha algoz. Nas deficiências extra-curriculares, ausentava-me para não receber avaliação abaixo da média. Em todas as brincadeiras e jogos de crianças eu era o melhor ou um dos melhores.

Por essa fase ainda, descobri parte da minha sexualidade. Tentava imaginar, pelas conversas dos adultos, como era beijar e como seria um órgão sexual feminino. Então, no acaso, a beira do Rio Itapemirim, que corta a cidade, encontrei uma revista sueca, com imagens impactantes de relações explícitas. Não me lembro ter ficado excitado, mas surpreso pelas cenas coloridas.

Escondi o “tesouro” no porão da velha casa onde morava, com destaque para o pé de abiu no quintal, uma fruta, hoje, pouco cultivada, mas doce como néctar. Não guardei o segredo. Compartilhado com outro colega – não me lembro nome e nem feição -, ensaiamos no toque inspirado no achado, em revesamento, sem nenhuma inserção. Coisa, literalmente, de criança. Nada de prazer. Só a curiosidade!

A vida introspectiva tinha seus segredos, muitos, e irei contá-los, sem censura, na medida do alcance da memória.